A dor da perda é um sentimento que, lamentavelmente, se tornou crônico em nossa profissão. Em um Estado que clama por ordem e segurança, a vida de quem opera a última barreira contra a criminalidade se tornou excessivamente vulnerável. A trágica perda de dois policiais penais em menos de 72 horas — um em Várzea Grande, executado com requintes de crueldade, e outro em Sinop, vítima de um disparo na cabeça, no qual não sabemos ao certo a motivação — é a prova mais recente e cruel da urgência de ações na “segurança na segurança” em Mato Grosso.
Nossa tese é clara: o Poder Público precisa intensificar estratégias e ações para proteção dos operadores de segurança e suas famílias, principalmente do policial penal, pois ele tem ligação direta durante toda a pena com o reeducando, por isso sofre ameaças e perigo em sua vida e na de seus familiares. Exigimos uma reestruturação imediata na política de valorização e amparo que precisa, urgentemente, ultrapassar os muros das unidades prisionais e alcançar a vida pessoal deles.
Somos compelidos a lidar, diariamente, com um público alvo de alta periculosidade. Dentro de nossa rotina, enfrentamos indivíduos que não conhecem a piedade, muitos dos quais buscam forçar o estabelecimento de um Estado paralelo. Estes grupos organizados ditam suas próprias regras, instituem seus “tribunais” e, o mais grave, ceifam vidas com uma brutalidade e crueldade que refletem sua total indiferença pela lei. A vitimização de um Policial Penal, Militar ou Civil nunca é apenas um crime comum; é um ataque direto à soberania e à autoridade do Estado, o qual buscamos ardentemente proteger. Quando um policial é vítima da violência, a mensagem enviada à sociedade é de impunidade, e precisamos garantir que o Estado seja capaz de proteger seus próprios defensores. O risco que nós, policiais, corremos é validado por anuários e relatórios nacionais que monitoram anualmente a alta taxa de vitimização de servidores da segurança no Brasil, realidade da qual Mato Grosso não é exceção.
O risco para o Policial Penal é de 24 horas, e a fragilidade da segurança se estende à sua vida pessoal e familiar. O Estado deve reconhecer que a valorização profissional não é um mero benefício, mas uma exigência tática de sobrevivência. Essa dignidade deve permitir ao Policial Penal, assim como àqueles das demais forças de segurança, ter um estilo de vida que sirva de escudo. É vital que tenhamos condições de não frequentar ambientes vulneráveis e que não sejamos forçados a morar em áreas consideradas de risco para nossas vidas, onde a presença e o domínio de grupos criminosos tornam o policial um alvo fácil para a violência. Em suma, a dignidade salarial e a estruturação de uma carreira robusta são, elas próprias, ferramentas para fortalecer o Estado.
Neste momento de luto e indignação pela perda de nossos pares, o SINDSPPEN-MT se mobiliza. Não podemos aceitar a banalização da vida de quem se dedica à segurança pública. A ausência de proteção efetiva de nossos policiais mina a moral da categoria e fortalece, indiretamente, o poder da criminalidade. Ao mesmo tempo que nos solidarizamos com as famílias, o SINDSPPEN-MT está acompanhando de perto as investigações e aguardando o resultado das apurações para que a justiça seja feita e os responsáveis sejam identificados e punidos com rigor. O clamor é por uma política de Estado imediata que reconheça a altíssima periculosidade de nossa missão e ofereça, de imediato, proteção e acompanhamento integral para os policiais e suas famílias; remuneração digna que garanta a segurança social e habitacional necessária; e ações de inteligência focadas na proteção ativa dos quadros da segurança. Reiteramos nosso apoio e solidariedade a todas as forças de segurança de Mato Grosso. A pauta da “segurança na segurança” é única e urgente. O tempo de resposta precisa ser imediato.
Queremos e vamos estar junto ao Estado para garantir que ele reaja com a mesma firmeza com que a violência nos desafia.
Por Amaury Neves Presidente do Sindicato dos Policiais Penais do Estado de Mato Grosso (SINDSPPEN-MT)
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