“Arcanjo é um preso valioso e poderá ser usado como moeda de troca por facções”

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Mato Grosso teve nos últimos anos um crescimento gigantesco em relação à facção criminosa denominada Comando Vermelho. Saltou de 350 membros em 2013 para mais de 3 mil soldados do crime atualmente no estado.  O presidente do Sindicato dos Servidores Penitenciários do Estado de Mato Grosso  (Sindspen-MT), João Batista Pereira de Souza, em entrevista ao Circuito Mato Grosso, fala das dificuldades do sistema penitenciário, e o descaso do governo com os presídios e criminalidade.

João Batista assumiu na última terça-feira (15) seu terceiro mandato na presidência do Sindspen, onde ficará a frente até 2021. Segundo ele, com o crescimento da facção Comando Vermelho no Estado, muito em breve teremos Mato Grosso transformado em novo Rio de Janeiro.

“É um prazo aproximadamente de dois anos para que o estado se torne o novo Rio de Janeiro e seja dominado por facção criminosa. Eles já têm ramificações em todo Estado e as unidades prisionais já foram tomadas”, diz em trecho da entrevista.

Outro tema falado com João batista é sobre a transferência do ex-bicheiro João Arcanjo Ribeiro para a Penitenciária Central do Estado (PCE).

“Na PCE ele correrá riscos, pois não tem ala separada e ele é um detento valioso para o estado”.

Confira na íntegra a entrevista.

Circuito Mato Grosso: Há realmente a facção Comando Vermelho no estado?

João Batista: Sim, isso é fato, desde 2013 integrantes do Comando Vermelho (CV) se instalaram no Estado e o líder deles é o Sandro da Silva Rabelo (Sandro Louco) ,que hoje está em presídio federal, mas tem seus braços direitos e homens de confiança.

Circuito Mato Grosso:  Mas quando se instalou de fato?

João Batista: Quando Sandro foi transferido para Catanduva lá conheceu líderes do CV, e quando voltou a PCE em Mato Grosso, em 2012, veio com o objetivo de instalar a facção no Estado e passou a recrutar novos membros. Foi aí que surgiu o comando aqui, e quem não era de facção passou a ser, e quem era de outras facções, ou entrava para o CV-MT ou morria.

Circuito Mato Grosso:  Quantas facções existem hoje em Mato Grosso? 

João Batista: Atualmente somente duas. O Comando Vermelho e Primeiro Comando da Capital (PCC). Começou um foco do Amigo dos Amigos (A.D.A) do Rio de Janeiro, mas aí com a morte de um membro deles no bairro Jardim Leblon, não foram muito longe.

Circuito Mato Grosso: Quem possui mais membros?

João Batista: Sem dúvida, o CV-MT.

Circuito Mato Grosso: O que levou a esse crescimento?

João Batista: Isso aconteceu em 2013, quando foram identificados 350 membros do Comando Vermelho em Mato Grosso. Na época, houve uma falha. Uns foram soltos por não ter espaço nos presídios e alguns identificados como perigosos foram transferidos para o interior, e lá acabaram recrutando novos membros.

Circuito Mato Grosso: Então, em todo estado existe o CV?

João Batista: Sim. Em toda unidade prisional tem algum membro do Comando Vermelho.

Circuito Mato Grosso: No presídio feminino também existe membros?

João Batista: Na Ana Maria do Couto May também têm lideranças do Comando Vermelho lá dentro.

Circuito Mato Grosso: O Governo não explicita a existência da facção no estado por quê?

João Batista: Eles tentam esconder e maquiar a verdade para não provar a ineficiência, pois a falta de responsabilidade com o sistema penitenciário é muito grande. Eles alegam que é para não alarmar a população, mas a verdade tem que ser dita sem esconder nada, e as pessoas nas ruas enxegaram o que está acontecendo e como anda a criminalidade.

Circuito Mato Grosso: Eles alegam que esse é o Governo que mais fez pela segurança pública no Estado, confere?

João Batista: Sim, para a área de ostensividade, policiais e viaturas nas ruas… é verdade. Mas, isso é uma falsa sensação de segurança, pois tanto a Polícia Militar, quanto a Polícia Civil enxugam gelo. Prendem hoje e soltam amanhã e ai coloca a culpa na Justiça e nas leis e isso não é verdade.

Circuito Mato Grosso: O que seria então?

João Batista: Na verdade a jJustiça solta porque não há vagas nos presídios. Por exemplo: o juiz tem dois criminosos para escolher, entre o assassino ou o ladrão. Aí ele opta em deixar nas ruas o ladrão que não matou ninguém, fazendo o uso de tornozeleira eletrônica, quando, na verdade, ele também deveria estar preso, pois cometeu um crime.

Circuito Mato Grosso: Onde seria ideal o investimento?

João Batista: Principalmente nos presídios e para os agentes, pois eles fazem a contenção diária dos presos, lidam com as facções e líderes.

Circuito Mato Grosso: Existe alguma possibilidade de rebelião?

João Batista: Na verdade todo dia há, e só não houve algo maior porque os agentes estão lá controlando os presídios e evitando motim ou rebelião, por isso eu falo que o governo deveria dar melhores condições de trabalho, scanner corporal par ver se entra droga e celular na unidade, contratar novos agentes para poder fazer uma revista mais eficiente e tirar os celulares das mãos dos criminosos.

Circuito Mato Grosso: E como é feita a revista?

João Batista: A Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh) proibiu a revista íntima, quando era descoberto drogas ou celulares no corpo de visitantes. Hoje em dia é utilizada só a revista pessoal com detector de metais (raquete) e os visitantes têm se utilizado de técnicas para tentar entrar nos presídios com material ilícito, mas os agentes ainda conseguem fazer grandes apreensões de celulares e drogas.

Circuito Mato Grosso: Voltanto a questão das facções, qual a diferença do Comando Vermelho para o PCC?

João Batista: O Comando Vermelho é mais violento que o PCC. O PCC é uma organização mais preocupada em roubos e estelionato visando dinheiro par a facção, mas também usa técnicas de violência, e o CV age em todas as partes.

Circuito Mato Grosso: Eles possuem regras?

João Batista: Sim, as duas facções têm seus estatutos e leis e quem não cumpre ou segue as regras tem a punição por parte deles.

Circuito Mato Grosso: E a que se deve as mortes que o Comando Vermelho tem promovido?

João Batista: É uma espécie de recado de que estão agindo em Mato Grosso. Há tempos não víamos assim essas mortes em presídio ou a mando de facções.

Circuito Mato Grosso: Há risco de aumentar o número de membros dessas facções?

João Batista: Há, infelizmente é a verdade. Em um prazo aproximadamente de dois anos Mato Grosso será dominado por facção criminosa e poderá ser comparado a um novo Rio de Janeiro. Eles já têm ramificações em todo Estado e as unidades prisionais já foram tomadas. Se o governo não reagir, depois será difícil controlar.

Circuito Mato Grosso: E com a possível chegada do João Arcanjo Ribeiro em Cuiabá?

João Batista: Primeiro que não tem nem lugar para ele ficar. Na PCE ele correrá riscos, pois não tem ala separada para ele, e ele é um detento valioso para o Estado.

Circuito Mato Grosso: Mas ele não é respeitado no presídio?

João Batista: Ele, na verdade, não se mistura com os demais presos. Os crimes que ele cometeu são em outra instância, outras situações. Porém,ele ficará numa mesma cela que os demais, sem segurança diferenciada e nem nada.

Circuito Mato Grosso: E qual seria o perigo então?

João Batista: Ele, por ser um preso valioso, com alta visibilidade, pode se tornar moeda de troca entre os presos e Governo e acontecer algo com ele, pois imagina a mídia internacional que daria se acontecer algo com ele no presídio.

Circuito Mato Grosso: Qual seria a solução?

João Batista: Primeiro que teríamos que criar em Mato Grosso um presídio de segurança máxima, onde seriam retirados das unidades os principais cabeças que hoje são os líderes das organizações criminosas e deixariam eles isolados com segurança reforçada.  Por exemplo, o Arcanjo. Por ser um preso diferenciado, quando ele foi transferido para presídio federal era com a condição temporária para o Estado adequar a uma cela ou estrutura diferenciada para recebê-lo. Porém, o tempo passou e nada foi feito.

Circuito Mato Grosso: Mais alguma?

 

João Batista: Além da construção do presídio, um melhor aparelhamento do sistema penitenciário seja com profissionais e equipamentos adequados para o trabalho e abertura de novas unidades, pois as que já existem estão saturadas.